Sensações de vislumbre e deslumbre | por Prof. João Braga

Vira e meche o brilho entra em moda. Brilhar significa reluzir, cintilar, emitir luz e costuma estar associado também tanto ao brilho do olhar quanto à própria luz emanada pelas estrelas; além de relacionar-se com o fogo, que tanto destrói como também purifica. Sendo assim, o brilho parece trazer em si alguma coisa de aspecto sobrenatural, algo que sobressai no escuro, na opacidade e/ou na neutralidade.

Com relação ao aspecto da emanação de luz, sabemos que o brilho do metal precioso sempre esteve presente nas joias em praticamente todas as culturas e épocas.

Bastou que homem dominasse o fogo para ter a ideia de fundir o metal e lhe dar uma forma apropriada. O ouro, devido às suas propriedades naturais e sua maior raridade, sempre esteve em posição superior numa escala de valores em relação à prata, que por sua vez sofre oxidação, em preteja e é mais comum que o nobre ouro e, consequentemente, de menor valor. Estes brilhos nas joias foram acrescidos de pedras, primeiramente polidas e mais tarde lapidadas, o que fez com que estas não só complementassem, mas também colorissem o brilho do metal que a continha. Aplicar placas de metal sobre a roupa tanto como adorno ou proteção (a primeira ideia do que bem mais tarde viria a ser uma armadura) é tão antigo como o próprio início do processo civilizatório, pois mesopotâmicos já o faziam. As tais armaduras como as conhecemos, de metal e que brilhavam, já são do período da Baixa Idade Média na Europa Ocidental, mas esta ideia do uso de placas de metal sobre as roupas é tipicamente oriental e bem anterior. Lembrando ainda das moedas presas também às roupas que é uma característica dos povos nômades em geral, pois a pessoa não tendo onde guardá-las devido ao nomadismo (ainda não existia nem o papel moeda nem bancos), era comum furá-las e costurá-las sobre a roupa, pois além de enfeitar e denotar riqueza, impedia que a pessoa fosse roubada pois perceberia o roubo e até mesmo poderia senti-lo caso estivesse dormindo quando alguém tentasse roubar-lhe ao  puxá-la das roupas. Destas tais moedas aplicadas às roupas é que bem maistarde se teve a ideia de fazê-las bem fininhas para que pudessem adornar melhor a indumentária de quem quer que fosse, surgindo então o paetê que, primeiramente, era de metal e que pesava sobre o tecido; sendo então de plástico também brilhoso, após a II Guerra Mundial.

Ao longo dos tempos, bordados com fios de ouro, prata e também de seda fizeram com que as roupas das pessoas de camadas sociais mais elevadas, e até as eclesiásticas, muito reluzissem também; além dos muitos tecidos brilhosos tais como sedas, adamascados, brocados, chamalotes entre outros que foram muito usados no Renascimento, no Barroco, no Rococó e no Império como forma de demonstrar poder material e status social; inclusive com fios de ouro e/ou prata na própria tecelagem, além dos bordados com pedras preciosas. É o brilho sempre se fazendo presente na Moda.

Durante o século XX, o brilho volta a aparecer com grande regularidade. Nos anos 1920 muitos paetês de metal enfeitavam e faziam brilhar as roupas das ousadas mulheres que se davam o direito de sair para dançar o oxtrote ou o Charleston; nos anos 1930 as sedas e os cetins estiveram em voga fazendo brilhar as roupas das divas do cinema; nos anos 1950, o brilho chique de bordados em tecidos sofisticados era comum para complementar o refinamento de uma moda glamorosa; nos anos 1960, o brilho vinílico de uma moda sideral com muito prateado em ilhoses, zíperes e placas de metal à la Paco Rabanne fizeram a moda; no final dos anos 1970 foi a vez do brilho na moda da era “disco” novamente com muitos paetês, lamês e outros materiais reluzentes; nos anos 1990 na moda jovem urbana o brilho apareceu com os tecidos ou detalhes dos “refletivos” dando uma cara nova e tecnológica a este aspecto. Também nos anos 1990, houve uma moda associada aos tempos vindouros de uma nova década, um novo século e um novo milênio – século XXI – denominada de New Age (Nova Era), que muito privilegiou o brilho branco/prateado não só em tecidos como também com o uso de cristais nos acessórios(se possível em estado bruto) sendo transparentes, translúcidos e brilhantes. Já a partir dos anos 2000, o brilho voltou à tona com os valores associados ao luxo, para se contrapor a toda  difusão e permanência de uma moda do underground e do streetwear; brilho este para expressar glamour, atitude fashion e diferenciação social.

Atualmente nos anos 2016 e 2017, além dos têxteis brilhosos e aplicações reluzentes sobre as peças de moda, inclusive para os homens, o brilho invadiu o mundo dos alçados. Não é a primeira vez que isto acontece, porém vê-se uma febre de sapatos de diversos formatos e até mesmo tênis com materiais laminados para todos, já que a moda agênero está com a bola da vez. Independente deste brevíssimo histórico do brilho na moda, a intenção desta pequena reflexão é também sobre o aspecto das sensações que os brilhos nos passam. Vale salientar o quanto é perceptível que o brilho amarelo do dourado, costuma nos remeter ao passado, devido ter sido usado em diversos momentos históricos nas artes (pinturas e esculturas), na arquitetura, tanto no período bizantino quanto no gótico assim como, especialmente, no período da estética barroca sendo este associado à luz solar e, por conseguinte, à inteligência divina e, desta forma, ficou no imaginário e nas sensações coletivas uma associação ao passado.

Diferentemente o brilho branco do prateado nos remete ao futuro, passando-nos uma ideia de limpeza e de um vazio sideral simbolizando muitas vezes um estado celestial e à sensação de aproximação deste mundo espiritual futuro. Não só neste sentido, mas também a um futuro cósmico, lembrando inclusive, daquela moda dos anos 1960 quando do predomínio visual das roupas com aspectos da aproximação de um futuro tecnológico e espacial. Devido a este aspecto sensorial, o brilho prateado fica mais associado ao futuro e, por isso, acaba sendo muito mais usado nas viradas de ano, em especial no Brasil, no sentido de saudar e elucidar um novo ano vindouro esperançoso de benesses futuras. Amarelado ou esbranquiçado, dourado ou prateado, o brilho na moda acaba sempre sendo conjugado no futuro do pretérito.